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Coluna Alta Roda - Jogo para a torcida
Alta Roda nº 635 — Fernando Calmon — 28/7/2011
Não se pode mais afirmar que os defensores do carro elétrico no Brasil estão numa crise de apatia. Até pouco tempo só havia manifestações isoladas, algumas iniciativas pontuais como o programa conjunto entre Fiat e Itaipu Binacional ou projetos individuais, a exemplo do engenheiro Elifas Gurgel, que promete kits elétricos com baterias convencionais por apenas R$ 13.000 (mais a mão de obra). Nos recentes salões internacionais de automóveis o assunto esteve onipresente e, portanto, não há como ignorá-lo dentro das nossas fronteiras.
A Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), fundada em 2006, tem feito uma crescente exposição de suas ideias e defende a adoção imediata dessa tecnologia no país. Dentro do entusiasmo que caracteriza um tema tão relevante, surgem alguns exageros. Chamar um híbrido de veículo elétrico híbrido mostra mais uma visão de marketing do que técnica, pois a tração puramente elétrica é apenas simbólica nessa tecnologia, considerando que o velho motor a combustão continua presente, garantindo desempenho e autonomia. Isso ocorre até no Chevrolet Volt, um híbrido em série plugável em tomada que estende sua autonomia para 500 km graças a um motor/gerador a gasolina.
Semana passada, a ABVE organizou em Brasília o Seminário Brasileiro sobre Tecnologias para Veículos Elétricos (TEC-VE 2011) com uma pauta extensa e interessante ao longo de dois dias. Foi o melhor fórum de discussões até hoje, incluindo conferencista do exterior, no caso o português Robert Stussi. Ford, Nissan, Renault, Mitsubishi e Iveco colocaram sua visão sobre os próximos passos para introdução dos elétricos ou mesmo híbridos no Brasil.
Entre os temas discutidos chamaram a atenção as fontes de metais de terras raras e de lítio, como matéria-prima para motores elétricos de ímãs permanentes (os mais viáveis) e para fabricação de baterias, respectivamente. Chineses e bolivianos são os principais aquinhoados com reservas desses metais e os preços podem acelerar tanto ou mais que um carro elétrico, reconhecido por essa capacidade.
Uma das bandeiras levantadas foi o estímulo fiscal que criaria alguma atratividade. A Argentina estabeleceu uma cota de 300 veículos híbridos e elétricos por ano com apenas 2% de imposto de importação, porém só para quem já fabrica no país. No Brasil, o veículo elétrico recebe taxação de 25% de IPI. Na outra ponta um carro com motor de 1 litro de cilindrada paga 7%, mas sem diferenciação entre gasolina e flex, também uma distorção.
Na realidade, carros elétricos a bateria, como Nissan Leaf ou Mitsubishi i-MiEV que estavam em Brasília para demonstração, custam tão caro – mais de R$ 150.000 – que não há incentivo capaz de atrair consumidores comuns por aqui. Nem mesmo a grande diferença no custo/km rodado ajudaria a amortizar o preço, já que as distâncias percorridas em cidade, hábitat do elétrico, são insuficientes.
O preço muito elevado deve-se à bateria com suas células e, apesar do empenho dos fabricantes, nada indica que haverá progresso substancial nos próximos anos. Salvo em aplicações de nicho ou uso específico, o carro elétrico, por mais racional que se apresente, ainda não passa de jogo para a torcida.
RODA VIVA
GOVERNO está dividido em relação à nova taxação sobre veículos. Em Brasília, na TEC-VE 2011, Nelson Barbosa, secretário do Ministério da Fazenda, afirmou que emissões gasosas não balizarão as futuras alíquotas. Mas o selo de eficiência enérgica, espécie de fusão entre dados de consumo e ambientais, será obrigatório a fim de ajudar na escolha do consumidor.
NISSAN anunciou nova fábrica no Brasil para 200.000 veículos por ano, independentemente dos investimentos de sua aliada Renault, dentro de seu plano estratégico mundial. Como o compacto March vem do México, é bastante provável que, nesse volume, o escolhido seja um subcompacto para brigar com os modelos semelhantes em gestação Fiat e Volkswagen.
EVOLUÇÃO do Ford Edge (R$ 142.600, na versão avaliada) foi marcante. Desde o motor V-6 de 289 cv (mais 20 cv) à nova grade frontal e um interior requintado graças à eletrônica de bordo, esse utilitário esporte com algo de crossover convence. Agora, modelo básico parte de R$ 122.000. Interessante a troca sequencial de marchas no pomo da alavanca do câmbio automático.
PLANEJAMENTO inicial da GM era lançar três produtos inteiramente novos este ano. Mas terá de se contentar com apenas dois, ambos sedãs: médio compacto Cruze e o compacto Cobalt. Ficou para o início de 2012 a versão hatch do Cruze. Na fila, logo em seguida, estará a nova picape média S10.
IMPORTADORES admitem que a obtenção de licenças prévias de importação não automáticas deve atrasar novos embarques. Informalmente o governo segue prioridades: primeiro, veículos argentinos e mexicanos; depois, de outras procedências mas de marcas que produzem e exportam do Brasil; por último, os demais fornecedores, que só importam. Parece justo.
A coluna Alta Roda aborda temas de variado interesse na área automobilística: comportamento, mercado, avaliações de veículos, segredos, técnica, segurança, legislação, tecnologia e economia. A coluna semanal é reproduzida em 85 jornais, revistas e sites brasileiros. Está dimensionada com 5.000 caracteres e é editada nas 52 semanas do ano. Alta Roda começou a ser publicada em 1º de maio 1999. Firmou-se como referência no jornalismo especializado por sua independência e análises objetivas.
Sobre o autor: Fernando Calmon (fernando@calmon.jor.br) é jornalista especializado desde 1967, engenheiro, palestrante e consultor em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. Sua coluna automobilística semanal Alta Roda começou em 1999. É publicada no Carros e Segredos e em uma rede nacional de 85 jornais, sites e revistas. É, ainda, correspondente no Brasil do site just-auto (Inglaterra).
Novidades do Salão de Seul: Parte I
Hyundai Blue 2 Concept – A marca coreana levou ao evento local um conceito futurista de linhas fluídas e quatro portas. Ele utiliza um sistema à hidrogênio que rende 120 cv com média de consumo de 34,9 Km por litro de gás. Seu nome vem da junção de “Blue drive e H2O”. Em breve deve originar um modelo produção com suas características.
Samsung SM7 Concept – O conceito antecipa as linhas da nova geração do maior modelo da marca que chega no segundo semestre. Sua plataforma é compartilhada com o recém-apresentado Renault Latitude e seus motores poderão variar de opções de quatro e seis cilindros (diesel, gasolina e GLP). Mais detalhes serão divulgados em breve.
SsangYong Charmain reestilizado – De cara nova o sedã de luxo da marca traz melhorias importantes para enfrentar Equus e Optima no mercado local. Além do visual que mudou bastante, o interior traz muitos itens de alto luxo e sistemas de segurança e conforto só encontrados nos similares europeus. O que continua da mesma forma são os motores V6 e V8 de origem Mercedes.
Kia Naimo Concept – Esse conceito elétrico da Kia vem com um inédito sistema de carregamento das baterias em apenas 25 minutos contra 8 horas da média de outros modelos de mesma tecnologia. Ele possui um motor elétrico que gera 80 kW (109 cv) e 28 kgfm de torque e as baterias são de íon lítio. Sua autonomia é de 200 Km com carga total e a velocidade é limitada em 150 Km/h. Desenhado por Peter Schreyer, seu teto achatado somado à suas formas arredondadas tem aspecto bem original e é diferente de tudo que já foi visto por aí.
Nissan Leaf fabricado no Brasil?
Vídeos flagra do futuro BMW i8
Coluna Alta Roda – Reciclagem necessária
Há mais de 100 anos as baterias limitam a viabilidade prática e econômica do carro elétrico. Os tempos de hoje são outros e vão além de apenas pesquisar novos materiais que permitam diminuir o preço, o peso, o volume, o tempo de recarga e aumentar a autonomia. A reciclagem tornou-se tema prioritário e obrigatório. Baterias, principalmente quando forem produzidas em grande quantidade, também terão de se enquadrar nessa realidade.
As que estão dando um sopro de vida aos veículos elétricos são as de lítio – íons ou de polímeros – e enfrentam ainda dúvidas sobre o volume desse metal disponível no mundo. Os fabricantes, no entanto, apostam que se a demanda crescer muito, as mineradoras vão se empenhar mais em pesquisas e exploração. Dessa forma, problemas de alto custo e de concentração das reservas em poucos países poderiam, em teoria, ser superados.
A reciclabilidade alcança as baterias de lítio, mas há de se enfrentar os custos elevados para isso e a tecnologia que poucas empresas dominam. Bruce Mulliken, de Baltimore (Maryland), EUA, é editor e publisher do ótimo site www.green-energy-news.com. Ele comenta que “os fabricantes parecem seguir a prática usual do mercado que costuma esperar que outras empresas preencham a necessidade de reciclar”.
Em meados do ano passado, apenas a Toxco estava capacitada a manusear, neutralizar, desmontar e reaproveitar o lítio. A empresa tem quatro instalações nos EUA, mas só a quinta, localizada em British Columbia, no Canadá, pode aplicar o processo industrial em unidades grandes e pesadas.
Baterias automotivas de lítio, ao longo de seu desenvolvimento e pesquisas atuais, poderão durar 10 anos ou mais, se não apresentarem falhas antes. Alguns veículos de uso intensivo – táxis, por exemplo – apresentam vida útil até menor. Em qualquer hipótese, a reciclagem precisa ser feita também por razões de segurança. Afinal, se trata de peças de alta capacidade de armazenar energia, ao contrário das de telefones e outros eletrônicos portáteis.
A primeira providência: armazená-las em casamatas de concreto enterradas no solo para remoção da eletricidade residual, insuficiente para mover um carro. Como o lítio é altamente explosivo em temperatura ambiente, a Toxco patenteou um procedimento de criogenia que resfria a bateria a 198 graus Celsius abaixo de zero. Dessa forma, ela se torna inerte para início do processo de desmontagem.
As dificuldades não terminam aí. Existe a necessidade de recortar e fragmentar metais. O lítio transforma-se em carbonato de lítio para revenda. O eletrólito, também perigoso, deve ser neutralizado em compostos estáveis, além de estruturas de plástico e outros materiais a recuperar para reciclagem ou descarte conveniente depois.
Para manter tudo dentro de normas de segurança operacionais tem que se apelar para máquinas. A companhia afirma que cerca de 90% do processo de reciclagem, além do reaproveitamento do lítio, é controlado remotamente por intermédio de robôs industriais.
O preço do processo completo não foi informado, mas barato não é. Espera-se que outras empresas se interessem pela reciclagem, pois com certeza haverá restrições incontornáveis quanto ao simples descarte no lixo das baterias de lítio.
RODA VIVA
DEPOIS do Linea, também o novo Peugeot 408, entre modelos produzidos no Mercosul, adota estratégia de tamanho certo (rightsizing) ao utilizar motor importado com turbocompressor para obter desempenho com baixo consumo. A versão especial do modelo francês utilizará o motor de 1,6 litro, projeto BMW, no final do ano. Potência pode passar dos 156 cv, do 3008.
SUL-COREANOS da Hyundai, ao inaugurar a pedra fundamental da fábrica de Piracicaba (SP), deixaram a modéstia de lado. Para eles é pouco ser a maior entre as marcas menos tradicionais. Anunciaram a meta de estar entre as Quatro Grandes, tomando o lugar da Ford. Precisa combinar antes não apenas com a Ford, mas com outras que pretendem o mesmo.
IMPACTO no mercado do novo Bravo ficou diluído, depois que o Hyundai i30 emplacou. Médio-compacto da Fiat é mais bonito que o antecessor (Stilo), tem motor melhor (1,75 l/132 cv), câmbio automatizado bem mais acertado e equipamentos como airbag de joelho, sensores de aclive e de pressão dos pneus. Forma um conjunto homogêneo e sempre na mão.
PLANOS e investimentos da GM no Brasil continuam sem mudanças, apesar da saída prematura da presidente Denise Johnson. Jaime Ardila acumulará as funções com a presidência para América do Sul. Como antecessor da executiva, mantém o rumo de completa atualização dos modelos: nove inteiramente novos até o final de 2012.
MODELOS chineses não param de chegar ao Brasil, mas nos EUA ainda passam ao largo. O mercado americano é tão competitivo e difícil de lidar que se torna mais fácil anunciar intenções do que agir. Mike Omotoso, da consultoria J.D. Power, resumiu: “Marcas chinesas estão tentando correr, antes de aprender a andar”.
A coluna Alta Roda aborda temas de variado interesse na área automobilística: comportamento, mercado, avaliações de veículos, segredos, técnica, segurança, legislação, tecnologia e economia. A coluna semanal é reproduzida em 85 jornais, revistas e sites brasileiros. Está dimensionada com 5.000 caracteres e é editada nas 52 semanas do ano. Alta Roda começou a ser publicada em 1º de maio 1999. Firmou-se como referência no jornalismo especializado por sua independência e análises objetivas.
Sobre o autor: Fernando Calmon (fernando@calmon.jor.br) é jornalista especializado desde 1967, engenheiro, palestrante e consultor em assuntos técnicos e de mercado nas áreas automobilística e de comunicação. Sua coluna automobilística semanal Alta Roda começou em 1999. É publicada no Carros e Segredos e em uma rede nacional de 85 jornais, sites e revistas. É, ainda, correspondente no Brasil do site just-auto (Inglaterra).


